20 de setembro de 2021

Comunidade Yuba em quadrinhos – 3 de 3

Última tira da série sobre a comunidade Yuba que fez parte do “Circuito Sesc de Artes”, com iniciativa do Sesc Birigui.

Uma das coisas que mais me fascinou durante o processo de conhecer um pouco mais sobre a Yuba é essa relação com a arte. Uma relação não apenas contemplativa, mas de ser algo realmente fundamental para vida da própria comunidade.

O fundador, Isamu Yuba, desde o início entendeu que a arte deveria estar presente, fez um esforço para trazer artistas para morar na comunidade. Entre eles Hisao Ohara, escultor que viveu na comunidade até falecer, e sua esposa Akiko Ohara, bailarina responsável por iniciar uma fase cultural importante com a construção do Teatro Yuba. Essas apresentações levaram a arte de Yuba para vários cantos do país e até fora dele.

A arte é presente desde cedo na vida dos moradores. Instrumentos musicais, dança, coral, poesia… Fazem parte da comunidade com a mesma naturalidade que instrumentos agrícolas, o cultivo da terra e outras tarefas do dia a dia. Um lugar onde é possível ver um trator e um piano de cauda dividindo espaço no mesmo pavilhão.

A própria arte presente em Yuba acabou servindo de elemento para a construção da HQ. Nas pesquisas acabei descobrindo o trabalho da fotógrafa Lucille Kanzawa, que conheceu Yuba anda criança e decidiu registrar em livro esse olhar. “Yuba" é o resultado de sete anos de documentação fotográfica realizado na comunidade. O primeiro quadro é uma releitura de uma das fotos que achei mais impressionante, traduz em imagem muito do que senti dessa relação da arte que se mistura com a própria vida. 

Foto de Lucille Kanzawa que integra o livro "Yuba".

A parte da dança é uma menção a uma apresentação Butô de Yoshito Ohno que aconteceu em Yuba em um reencontro com Akiko Ohara. Por último, uma referência às esculturas em granito de Hisao Ohara, expostas em um jardim ao ar livre.

Foi realmente gratificante participar desse trabalho e conhecer melhor essa comunidade.

Em um mundo cada vez mais acelerado onde tudo é feito de forma prática e sem profundidade, Yuba acaba sendo uma forma de lembrar que viver é sentir, e só sente àquele que se coloca presente diante dos momentos que a vida oferece.

:)

14 de setembro de 2021

Comunidade Yuba em quadrinhos – 1 de 3

No mês passado o Sesc Birigui me convidou para participar do “Circuito Sesc de Artes”, uma ação que acontece em todas as unidades e apresenta a arte nos mais diversos seguimentos. No meu caso, claro, envolve quadrinhos.

A proposta era jogar um olhar para a comunidade Yuba, localizada no interior paulista, na cidade de Mirandópolis.

Até então eu não sabia bem como era essa comunidade, mas bastou pesquisar uns dois links para entender o motivo do Sesc ter escolhido ela para a homenagem e me empolgar demais com a ideia de participar daquilo.

Yuba é uma comunidade agrícola fundada em 1935 por imigrantes japoneses. O fundador, Isamu Yuba, estabeleceu três pilares fundamentais: Reza, agricultura e arte.

A reza não tem relação direta com uma religião em si, é mais um sentimento de agradecimento e pertencimento. A agricultura não é vista apenas como fonte de renda, o contato com a terra é quase uma filosofia de vida para eles. A relação com a arte é muito bacana. O fundador, desde o início, se preocupou em ter a arte presente no dia a dia da comunidade. Um alimento para a alma, uma forma de cultivar a sensibilidade de enxergar as nuances da vida.

Minha tarefa era simples, sintetizar três momentos da comunidade no formato de tiras:

O começo;

A relação com a agricultura;

A relação com a arte.

De cara pensei em uma linha mais poética, algo parecido com um “(SIC)”, explorar os elementos narrativos, mesmo em um espaço muito pequeno.

A primeira tira, a do início da comunidade, já carreguei na poesia. Na minha ótica inicial e de acordo com tudo que li, me marcou a preservação de valores japoneses dentro da comunidade. A língua oficial da comunidade é o japonês, as crianças só aprendem português para valer depois que entram na fase escolar. Tem uma biblioteca com milhares de títulos em japonês… Fiz então algo remetendo a essa simbologia.

A tira brinca com a figura de linguagem, mostra que depois que Isamu saiu do Japão, o Japão cresceu dentro dele… Saindo em forma de comunidade. Gostei demais do resultado. Porém, ela acabou não sendo aprovada.

Ao apresentar a HQ ao pessoal da comunidade a resposta veio em forma de estranhamento. Algo não encaixava, sentia que a própria comunidade não se via muito ali naquela narrativa.

Tentei entender porque uma comunidade que tem a língua japonesa como oficial estranhou essa relação. Aí resolvi me aproximar mais, ouvir o que eles tinham para falar. Existe, de fato, uma simbologia forte com o Japão, mas talvez não fosse o que chamamos de "ponto chave" das motivações do fundador e de como a comunidade se enxerga. Uma frase de um dos moradores ficou na minha cabeça “O fundador saiu do Japão em busca de um sonho, fundar uma comunidade agrícola com base nas ideias de Tolstói”.

Confesso que, até então, via Tolstói mais como romancista russo mesmo, não como um ideário de comunidade. Pesquisei um pouco mais e fiquei sabendo sobre as escolas agrícolas fundadas por Tolstói. Um modelo de aprendizado que difundia um pensamento libertário. A participação devia ser espontânea, livre de coerção e valorizando os saberes individuais e seus interesses. Além de noções de uma comunidade com pensamento livre, igualitária e que questiona a ideia de propriedade privada.

Tolstói abandonou a igreja ortodoxa por considerar contraditório aquilo que se prega e aquilo que se faz. Considerava os camponeses a classe que mais se aproximava de Deus. Alguns estudiosos classificavam seu pensamento como anarquista, o que ele não gostava muito, pois achava que remetia à violência (mas também não refutava), ele preferia classificar esse modo de vida como a de um “Cristão Literal”.

Vi muito sentido nisso tudo ao pensar em Yuba. Até a questão da reza sem o apego a uma religião específica parecia se encaixar. Percebi um sentimento de valorização, orgulho e gratidão perante a comunidade. Até entrei na questão político social, se eles se viam enquadrados em algum modelo específico ou coisa assim, mas a verdade é que não me pareceu se importarem muito com isso. Nas palavras de um dos moradores:

"Acordar cedo, trabalhar ou estudar, almoçar e jantar todos juntos. De noite, cada dia da semana tem uma atividade (coral, dança, poesia etc). Domingo é dia de descansar e fazer o que quiser. Se isso é libertário ou não...a maioria não pensa nisso”.

Depois disso tudo achei que valeria muito a pena jogar esse outro olhar na primeira tira. Entendi que o Japão é, sim, uma referência forte ali dentro, mas o sentimento de pertencimento à comunidade, o pensamento coletivo, livre do peso da escalada pelo status social, a auto sustentação (90% do que é consumido é produzido lá mesmo) , são valores tão importantes quanto suas raízes no oriente.

Uma experiência muito enriquecedora. Mesmo gostando muito da primeira tira, e ainda achando que ela simboliza bem o sentimento de preservar parte da cultura japonesa dentro da comunidade, também fiquei muito contente com a vivência proporcionada pela troca de informações para entender melhor como a própria comunidade se vê. Uma das minhas preocupações era fazer um trabalho honesto com esses sentimentos. Gostei bastante da nova versão.

Diante desse exercício de escuta, um momento muito gratificante foi quando Isamu, representante da comunidade com quem eu mais troquei informações, me repassou a seguinte mensagem de um dos moradoras de Yuba:

"すばらしいねこのilustradorさんの人の話に向き合う姿勢には感動した

Diz que está emocionado pela postura que você teve para nos ouvir e chegar até aqui.”

Agradeço a Bárbara, do Sesc Birigui, pela confiança e pela oportunidade de vivenciar esse processo e a todos da comunidade Yuba, em especial o Isamu, pela paciência e rica troca de experiências.

As tiras serão publicadas nos dias 13, 14 e 15 de setembro de 2021 no Instagram do Sesc Birigui @sescbirigui.

Segue tira oficial, publicada no perfil do Sesc Birigui.

Depois comentarei o processo das outras duas por aqui também. :)

14 de maio de 2013

HQBR21

  Participo amanhã, dia 15, da abertura da exposição HQBR21, ao lado de alguns monstros do quadrinho nacional da atualidade. Curadoria do Paulo Ramos e do Núcleo da Imagem e da Palavra.  Apareçam!
8 de maio de 2013

Arte, cultura e paixão

 Inaugurou neste final de semana, no Poupatempo, a exposição “Arte, cultura e paixão”, realizada pelo Sesc com curadoria e textos de Igor Galante e Ilustrações de minha autoria. A exposição mostra 30 das principais personalidades ligadas à área de cultura da cidade. Pessoas que foram marcantes seja na literatura, pintura,  fotografia, comunicador ou mesmo como fomentador no campo cultural. Particularmente gostei muito de ter participado desse trabalho, mesmo conhecendo boa parte dos homenageados,  o trabalho de pesquisa do Igor revela dados bem interessantes e curiosos, que só fez eu respeitar e admirar mais esses artistas. Para quem quiser conferir ela fica no Poupatempo até dia 15 de junho, depois segue para outros locais públicos de Rio Preto. A grande Cecília Demian escreveu sobre a exposição na edição de hoje do Diário da Região, leia a matéria AQUI Abaixo dois dos homenageados, o pintor primitivista Daniel Firmino e o cenógrafo JC Serroni