29 de abril de 2022

A simbologia em O mundo de Yang

Não é novidade pra ninguém que já leu algum livro da série O mundo de Yang que ela é recheada de referências e simbologias sobre a cultura oriental, entre outras coisas.

A proposta nunca foi ser um “manual” para ensinar isso ou aquilo, mas usar parte dessa conteúdo como "gatilho" para ilustrar pensamentos e  reflexões que fazem parte da história. Uma espécie de metáfora que que ajuda a expressar o raciocínio do que está sendo dito.

Desde a última edição, O mundo de Yang - Dois Cortes, eu resolvi escancarar um pouco mais isso e compartilhar com o leitor algumas curiosidades sobre a história que ele acabou de ler e sobre a série.

A seção “Reverberações” serve exatamente para isso, comento um pouco de como a história surgiu, os caminhos que ela tomou, elementos que aparecem e porque estão ali. Um deles são as “facas gêmeas” PA CHAN TOU. Desenho o Yang com elas desde o início, mas é a primeira vez que elas aparecem em uma história. São armas características com um estilo de kung fu chamado Wing Chun. Esse estilo tem raiz budista, além do uso como ferramenta de luta, a simbologia que elas representam acabam contribuindo bastante com a evolução do Yang na história.

Tem também o novo personagem, mestre Tay. A aparição dele é bem curiosa também e o visual é inspirado no “Tay” daqui de casa rsrsrs

Já estamos preparando mais curiosidades para o próximo número. Aguarde.

Conheça a série O mundo de Yang. Os livros você encontra em:

www.lojaorlandeli.com.br

www.amazon.com.br

www.comix.com.br

20 de abril de 2022

Na minha cabeça mora um pequeno Angeli

Alguns artistas passam a vida correndo na frente. Saem em disparada e o resto que lute para tentar, pelo menos, não perder eles de vista. São a referência, aqueles que ditam o caminho de quem vem atrás. Angeli é um desses. Sinceramente, não tivesse conhecido a Chiclete com Banana lá nos anos oitenta eu nem sei se estaria aqui fazendo o que faço hoje. Aquilo me contaminou de uma forma tão intensa que, de uma hora para outra, ler já não era mais suficiente, queria fazer parte daquilo. Criava histórias em um caderno, que eram lidas por amigos de escola, de mão em mão. Não pensava em sucesso, conquistar isso ou aquilo… Só queria fazer parte daquele grupo de pessoas que contam histórias em quadrinhos.

Não demorou e, aí sim, comecei a publicar profissionalmente. Fazia tiras para um jornal. Humor de comportamento, claro. Igual a que lia na Chiclete. Desconhecendo qualquer fundamento técnico ou coisa do tipo para saber se o que eu fazia era bom, estabeleci um critério pessoal de avaliação. Perguntava pra mim mesmo:

- Daria para publicar na Chiclete com Banana?

Algumas vezes achava a tira boba demais (não era digna da Chiclete), aí tentava e tentava… Até chegar em algo minimamente razoável e que eu conseguia, pelo menos em meus sonhos, ver ocupando espaço nas páginas da revista. O critério funcionou, já que publiquei a tira durante mais de vinte anos.


Quando comecei a fazer charges não foi diferente. Angeli colecionou dezenas de troféus como melhor chargista, e não é por menos. Ele é simplesmente genial (nisso também). Fazia o tipo de charge que não se presta ao ridículo de ser só engraçadinha. Porém, também não se limitava a crítica pela crítica. Tinha sempre uma sacada inteligente, um desenho matador…Muitas vezes eu lia uma notícia e surgia uma piadinha óbvia na cabeça. Fazia o esboço, olhava o conjunto... Tudo certinho e engraçadinho. Certeza que o editor iria aprovar e os leitores iriam rir… Aí lembrava das charges do Angeli. Dava até um pouco de vergonha. Como se um pequeno Angeli começasse a falar na minha cabeça:

- É isso mesmo? Sem crítica, sem porrada… O cara é um fila da puta e você vai publicar só uma piadinha besta sobre o assunto?

Já descartei várias ideias por conta disso. Me obrigava a espremer a cabeça e ver se conseguia cavar mais fundo. Nem sempre saia algo muito melhor que a piadinha, mas em outras valeu demais a pena.Aí vieram os quadrinhos. Eu, com meu traço cartunesco, precisava acertar o meu desenho para histórias mais longas. Só fazia bonequinho narigudo, não servia para o que tinha em mente. Aí, mais uma vez, vem o Angeli. Que também é da casta dos fazedores de bonecos narigudos, mas desenvolveu um traço sujo, cômico e, ao mesmo tempo, dramático. Foi, de novo, uma das minhas principais referências gráficas. “Como o Angeli desenharia isso?” era uma pergunta recorrente.

A essa altura do campeonato o pequeno Angeli que mora na minha cabeça  já era quase um editor pessoal. Não perdoava.

 - Tudo isso é medo? Deixa de ser bundão. Bota pra foder nesse negócio aí, pô! 

E lá ia eu tentar cavar um pouco mais, chegar um pouco mais longe na solução gráfica, na ideia, na narrativa…


Hoje fiquei sabendo que o Angeli encerrou sua carreira de cartunista por conta de uma doença. Afasia. A mesma do Bruce Willis. Foda!Mesmo o Angeli tendo feito pelo quadrinho nacional mais do que 90% de todos os quadrinistas juntos, mesmo se a gente viver até os noventa e com a saúde intacta, não deixa de ser uma notícia triste.


Obrigado, Angeli.

Todos nós desenhamos e criamos um pouco melhor só por ter você sempre na nossa frente.

2 de julho de 2021

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25 de junho de 2021

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18 de junho de 2021

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26 de maio de 2021

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30 de junho de 2020

Na colônia penal – Kafka

Eu li o “Na colônia penal” já faz alguns anos. Na época passava por um momento de absurdo transtorno de ansiedade. Um caos indesejado se instalou em minha vida e não tinha a mínima pressa de sair dali. Pressão alta, insônia, irritabilidade… foi aparecendo tanta coisa que pela primeira vez na vida resolvi experimentar fazer terapia psicanalítica. Organizar e tentar entender um pouco esse processo dentro da cabeça. Foi bom. Falar abertamente sobre tudo sem me preocupar com julgamentos ajudou a olhar a coisa de uma distância um pouco mais segura. O que no começo era uma conversa sobre a causa em si, depois foi virando uma reflexão sobre os caminhos da mente e a relação que se constrói diante da causa e formas de manifestar essas emoções. O fato é que em uma das sessões a gente discutia sobre a arte como ferramenta de transpor sentimentos, inquietações e sensações. Citei um dos meus livros favoritos, “A Metamorfose” de Franz Kafka. E nessa meu psicólogo mandou: - Você já leu “Na colônia penal”? Em se tratando de mexer com angústias e mergulhar na camada mais obscura da alma humana, era tão ou mais impactante do que a trajetória inglória de Gregor Samsa depois de acordar de seus sonhos intranquilos. Eu não conhecia. Na mesma hora ele se levantou, foi até a estante, fuçou no meio de vários títulos com a temática de psicanálise e puxou uma edição com textos do Kafka, entre eles, “Na colônia penal”. - Aqui. Pode levar. A edição era bem antiga, tinha até um postal entre as páginas com uma ilustração à bico de pena representando o escritor tcheco. Meu lado colecionador se coçou inteiro para “esquecer" de devolver, eu nem era um paciente muito assíduo, desmarcava direto e aparecia bem de vez em quando. Acho que o próprio terapeuta sabia dessa possibilidade e, honestamente, penso que para ele era bem mais importante eu ler o livro do que ter a certeza que a edição voltaria a ocupar lugar na estante. A edição voltou, só para constar. No mesmo dia devorei o texto. Era tudo aquilo e mais um pouco. Lembro o quanto me pareceu atual. Quando li já estávamos em um momento em que grupos pediam volta do regime militar, torturadores eram homenageados, uma banalização do mal com apego à requintes de crueldade em nome da “justiça" começava a virar senso comum… Parecia que tinha sido escrito naquele mês e não em 1914. Penso que Jung falaria em sincronicidade. Não é algo que faço com frequência, mas Kafka me desperta um interesse em conhecer outras traduções. O trabalho do Modesto Carone para a Cia das Letras sempre foi muito elogiado. Na mesma semana comprei o ebook e mergulhei mais uma vez no texto. Nessa segunda leitura procurei apreciar melhor o jogo de palavras e a forma como Kafka leva o leitor para um lugar de desconforto sem necessariamente mostrar que ele está lá. Virou uma das minhas leituras favoritas. Agora, depois de anos dessa experiência, a Antofágica resolve fazer uma edição de “Na colônia penal" com ilustrações de Lourenço Mutarelli. Não dá para abrir mão do privilégio de testemunhar um encontro desses. Acabo de terminar minha terceira leitura dessa obra e, consequentemente, a terceira tradução do texto. Essa ficou por conta de Petê Rissati, que fez um ótimo trabalho. A edição está impecável, tem ainda uns textos de apoio de Lenio Streck, Celeste Ribeiro Sousa e Márcio Seligmann-Silva. Precisei voltar à terapia faz pouco mais de um ano. Outra cidade, outro psicólogo, outro caos… Ajudou, mas não teve livro dessa vez. Que pena.